Psitacídeos - sexo e intrigas

June 15, 2019

A primeira coisa a saber sobre o instinto sexual dos psitacídeos é que estas aves apresentam um comportamento “monogâmico social”, não apenas durante a época de reprodução, mas durante toda a vida.

 

Em segundo, é importante entender mais sobre o conceito de monogamia e o que ele realmente significa. A Monogamia social é uma coisa, monogamia genética é outra. A social acontece quando dois indivíduos de sexo oposto se unem para formar um casal. Já a genética é a monogamia sexual; que para ocorrer, cada membro do par precisa garantir exclusividade de acesso sexual ao outro. Resumindo, a monogamia social é um comportamento que ocorre dentro da vida em sociedade enquanto a monogamia sexual tem relação ao sexo e evolução genética.

 

Um trabalho conduzido na Universidade da Geórgia com 180 casais de espécies diferentes de aves mostrou que apenas 10% deles eram sexualmente monogâmicos. Para a surpresa dos pesquisadores, nem os pássaros azuis americanos, tradicionais modelos de fidelidade conjugal, escaparam: 15% a 20% dos filhotes foram concebidos em encontros fortuitos das fêmeas com machos da vizinhança.

 

Esses conceitos de monogamia foram e ainda são utilizados de maneira tão errada e “romantizada” por tantos anos, por vários profissionais e amantes das aves que criaram um conceito “torto e irreal” que dificulta os entendimentos e abordagens dos tutores em relação ao comportamento dos psitacídeos, principalmente no que se refere aos instintos sexuais.  

 

Sim, os psitacídeos escolhem um ao outro, acasalam-se de uma maneira erótica, cuidam de suas crias e se movem em harmonia dentro de um grupo social - uma pequena vida familiar/social! Mas esta vida conjugal aparentemente perfeita está repleta de amizades coloridas e casos extraconjugais digna de uma novela. Nada impede que um psitacídeo mude de ideia em relação ao seu parceiro durante a vida... Como dito popular: “a fila anda”.

 

É fato que psitacídeos, dentro de um grupo (casa, viveiro), adotam um tutor, uma ave ou um outro animal como seu parceiro. Este parceiro, uma vez escolhido, passa a ter acesso privilegiado a ave em questão, a qualquer momento e em qualquer situação. A ave por sua vez passa a refutar qualquer tipo de contato de terceiros, muitas vezes se mostrando agressiva a quem forçar acesso, desenvolvendo fidelidade, o que chamamos comumente de comportamento “monogâmico”.

Parar de "idealizar a relação" e aceitar que ela não é "perfeita", entendendo que a monogamia social é aquele comportamento que ocorre somente quando o parceiro está ao lado (dentro do alcance audiovisual), vai ajudar ao tutor a lidar melhor com crises de ciúmes/possessão das aves e também ajuda a evitar situações onde se força a ave escolher alguém que ela não quer naquele momento. Sabemos que quando o parceiro escolhido não está presente (fora do alcance audiovisual), esta ave, que antes era arredia e agressiva com terceiros, passa a demonstrar um comportamento bem diferente, aceitando carinhos e afagos.

 

Utilizando a monogamia social a nosso favor

 

O ideal é que pessoas (terceiros) só tentem manipular a ave em questão quando esta não está perto do parceiro. Além de tornar a ave mais sociável e a convivência mais agradável isso evita “bicadas” e “beliscões” desnecessários.

 

As escolhas do "amor"

 

Os psitacídeos fazem parte dos grupos de animais que escolhem seu parceiro, onde obrigatoriamente tem que acontecer aquilo que chamamos de “química”.  Isto explica em parte o porquê, apesar do fato de que um tutor seja totalmente louco e dedicado a seu “papagaio”, a ave não vai necessariamente o escolher como "parceiro" sob o simples pretexto de que ele é o único que cuida dela (comida limpeza etc.). A ave pode até depender totalmente de tal tutor, mas esse detalhe não é determinante na escolha dele como um companheiro.

Aceite que a partir do momento que a ave é capaz de fazer uma escolha, entre muitas opções disponíveis, ela é livre para escolher quem ela quer ... seja um humano, um cachorro, um gato, uma ave do sexo oposto ou do ate do mesmo sexo.

 

Amizades coloridas

 

Os psitacídeos são animais gregários (que vivem em grupo) e o comportamento monogâmico não os impedem de formar outros tipos de relacionamentos entre os diferentes indivíduos dentro de sua sociedade. Seria errado acreditar que um psitacídeo é um animal exclusivo que ama ou aceita apenas um único indivíduo e rejeita/ataca naturalmente todos os outros membros do grupo social ao qual ele pertence. Nenhum psitacídeos age dessa maneira em seu habitat natural.

 

Esse comportamento agressivo é diretamente relacionado à vida em cativeiro, relacionado a falhas na socialização, gerando insegurança sobre o meio ambiente e as relações junto ao grupo que pertence.

 

Os psitacídeos podem sim desenvolver "amizade" com vários indivíduos, desde que seja respeitado, principalmente quando está junto ao seu parceiro. É importante saber quando e como se aproximar e nunca forçar uma situação na qual possa comprometer o relacionamento da ave junto ao seu parceiro.

A pessoa pode até não ser o tal “escolhido” pelo “papagaio”, mas pode ser “amante” e desenvolver uma “amizade colorida” com a ave em momentos oportunos. E tem mais, essa “amizade colorida” pode crescer e um dia se tornar oficial, como foi dito, nada impede um “papagaio” de mudar de parceiro (a fila anda...).

 

Os hormônios

 

A estação reprodutiva depende de vários estímulos externos (temperatura, umidade, foto-período, alimentação etc.), que quando combinados levam a uma “explosão” de hormônios na ave. Com a elevação dos hormônios relacionados à reprodução, a busca por um parceiro, território, ninho e alimento se torna uma prioridade.

 

E quando a escolha do parceiro é finalmente resolvida, um ritual de intenso namoro começa, repleto de coreografias, vocalizações e caricias. É comum as aves compartilharem comida entre si, regurgitando alimento no bico uma das outras. Estes comportamentos vão evoluindo e crescendo ate que.... (O resto vocês podem imaginar)

A partir desse momento, os comportamentos das aves mudam: tornam-se mais territoriais, ciumentas, estressadas e protetoras, o que não significa necessariamente que se tornam agressivas!

 

A necessidade de um companheiro é tão urgente em um psitacídeo de cativeiro quanto um da natureza. Se a ave não conseguir estabelecer uma relação com um indivíduo próximo de sua própria espécie, ela fará isso naturalmente com um ser humano pelo fato deste ser responsivo e disponível. De fato, os psitacídeos não enxergam os humanos como pais (mãe ou pai); o relacionamento que ele estabelece é o de um parceiro, um "cônjuge".

 

Dupla personalidade

 

Um psitacídeo que foi corretamente socializado não se transformará da noite para o dia em um monstro simplesmente porque ele teve uma onda de hormônios! Exemplo: Nenhuma mulher se torna uma assassina profissional quando entra na TPM... 

 

No entanto, devemos admitir que estes hormônios exercem uma forte influência em seu comportamento e um pouco mais de sensibilidade, paciência e dedicação por parte do tutor neste período vai ajudar e muito. A busca por um ninho, a sedução sexual, a regurgitação, a masturbação e a postura de ovos são comportamentos que devem ser considerados normais.

 

Não é recomendável repreender a ave quando ela manifestar esses comportamentos e se ele demonstra seus sentimentos por você, basta não incentivar. Não estimule a ave, evite acessórios e atitudes que possam ter conotação sexual especialmente neste período, como por exemplo:

  • Oferecer alimento no bico direto da boca

  • Carinho sob as asas ou na cauda

  • Espelhos

  • Cabaninhas ou ninhos

 

IMPORTANTE: A reprodução é um momento muito estressante na vida das aves e ficar estimulando tal comportamento de maneira inconsequente e irresponsável pode causar uma queda na imunidade do individuo e como consequência doenças oportunistas.

 

OBS.: Um dado interessante é que se aproximar de uma ave assustada ou selvagem é muitas vezes mais fácil durante os períodos hormonais.

 

Período hormonal = inferno em vida?

 

Não, eu não penso assim. Na verdade, tem sido mais fácil para mim domesticar uma ave arredia/selvagem durante esses períodos, simplesmente porque os “surtos” hormonais são tão intensos que, na maioria dos casos, uma ave de temperamento medroso aceitará (cordialmente) ser acariciado e manipulada durante esse período/ciclo. Muitas vezes essa confiança frágil recém-adquirida continuará após o episódio hormonal.

 

Um bom trabalho de socialização em conjunto com postura e comunicação, respeito pela individualidade da ave durante este tempo, paciência e um pouquinho de empatia faz toda a diferença para o que tantas vezes é descrito como um “período de crise” com nossos amigos com penas.

 

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